O impacto da jornada 6×1 na vida das mulheres

A Rede PT de Comunicação ouviu trabalhadoras que apoiam o fim da escala 6x1 para que possam ter tempo para cuidar dos filhos e delas próprias.
2026-03-08 17:47:06
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O dia de Eva dos Santos Carneiro, 39 anos, se inicia antes do nascer do Sol. Seis dias por semana, a moradora do Gama – região administrativa do Distrito Federal localizada a 30 km de Brasília– acorda às 4h30 da manhã para conciliar os cuidados com seu filho de 9 anos e a ida ao trabalho. Das 7h às 16h, presta o serviço de auxiliar de serviços gerais em um condomínio da Asa Norte, na região central da capital nacional. Ao todo, são seis ônibus por dia, três na ida, três na volta. 

Mãe solo, Eva carrega sozinha a responsabilidade pelo sustento e cuidado da casa e da família, uma conta que raramente fecha quando a disponibilidade de atuação integral é de apenas um dia por semana. “No meu caso, sou eu ou sou eu. Não tem aquela coisa de ‘eu faço por você’”, afirma. Seu filho, que estuda à tarde, fica com um casal de vizinhos todas as manhãs para que ela possa sair e trabalhar.

Com uma folga única por semana, no sábado ou no domingo, algumas atividades do cotidiano se tornam difíceis de serem realizadas,  desde idas ao banco e a reuniões escolares até compromissos sociais. “Tem banco aberto no sábado? Não tem. Às vezes você tem um almoço em família que você não pode participar porque você tem que trabalhar.”

Um de seus maiores sonhos é poder fazer um lanche para seu filho levar para a escola no período da tarde, algo impossível no momento por sair muito cedo de casa. “Às vezes ele fala ‘mamãe, por que todos os meninos levam lanche para a escola e eu não?’ Isso não dói em você?.” 

Ao ser questionada sobre mudanças trabalhistas e o fim da escala 6×1, Eva Carneiro, que tem carteira assinada, é enfática: “Quem não apoia essa causa, não está dentro dela”. Ela afirma que a mudança teria consequências positivas,  aumento da motivação profissional e o fim de cansaços excessivos: “Voltaria a ter uma vida”. 

‘Trabalhar 6 dias por semana não é só cansativo: é desumano’

“Quem trabalha seis dias por semana quase não vive. Falta tempo para resolver o básico: ir ao banco, levar um filho ao médico, cuidar da própria saúde. Falta tempo para estar presente. E a presença não se recupera depois. Não somos máquinas programadas para produzir sem parar. Somos pessoas. Temos família, temos limites, temos sentimentos.” Clelba Leide da Cruz Santos Silva, 47 anos, prestadora de serviços gerais e cuidadora, celebra que, recentemente, conseguiu se libertar da escala 6×1. Mas ela ainda carrega lembranças dolorosas de quando as duas filhas eram pequenas, com 1 ano e 3 anos, e ela enfrentava uma jornada de trabalho exaustiva. 

Hoje ela consegue ter os sábados livres. “Tenho o privilégio de estar em um ambiente onde a família é prioridade. Mas já vivi do outro lado. E ele dói. Quando minhas filhas eram pequenas — uma com 3 anos e a outra com apenas 1, ainda amamentando — eu trabalhava em escala pesada”, relembra. Clelba conta que chegava em casa exausta fisicamente, após seus plantões, além de estar emocionalmente esgotada. “Perdi momentos que nunca mais voltam.” “Trabalhar seis dias por semana não é apenas cansativo – é desumano quando isso se torna regra permanente”, afirma a cuidadora.

A classe social não pode enclausurar as pessoas a uma qualidade de vida inferior, reflete a cuidadora Clelba. “Não é porque alguém pertence a uma classe social com menor poder aquisitivo que merece menos descanso ou menos dignidade. Todos somos feitos da mesma matéria. Garantir dois dias de descanso na semana não é luxo – é humanidade. É reconhecer que trabalhadores não vivem apenas para servir. Eles também precisam viver.”

‘A criação de um filho exige presença, não só sustento financeiro’

A vendedora Ana Claudia Silva Marques, 32 anos, concorda que é preciso discutir uma mudança da jornada no Brasil. “A escala 6×1 não é só cansativa, ela suga a vida da gente.” Para ela, quem enfrenta este esquema de trabalho, de uma única folga por semana, vive no automático e acaba se afastando da família, por exaustão. 

“Quando se tem filho, a escala 6×1 pesa ainda mais. A gente sai cedo, volta tarde, muitas vezes já sem energia. Perde momentos simples que nunca voltam: ajudar na lição com calma, assistir a uma apresentação na escola, sentar para conversar sem estar pensando que no dia seguinte o despertador vai tocar de novo. A criação de um filho exige presença, não só sustento financeiro… E presença não se encaixa em um único dia de folga”, lamenta Ana Claudia.

Uma única folga por semana não é descanso de verdade, pois se transforma no único dia livre para resolver inúmeras pendências, diz Ana. “Vira o dia de resolver tudo: mercado, banco, médico, organizar a casa, lavar roupa, resolver burocracia. Quando você percebe, o dia acabou, e você não descansou, não curtiu seu filho, sua família, não cuidou nem de você mesma. A escala 6×1 limita a vida social, afasta da família e desgasta não só fisicamente, mas emocionalmente!

 A vendedora lamenta não ter tempo para “para estudar, se qualificar ou simplesmente existir além do trabalho”. “Parece que a vida fica resumida a trabalhar para sobreviver.” Apoiar o fim da escala 6×1, diz ela, não significa que a pessoa não quer trabalhar. Ao contrário. “É sobre dignidade. É sobre ter tempo para ser mãe, pai, filho, ser humano. Porque ninguém deveria viver apenas para trabalhar e esperar ansiosamente por um único dia que nunca é suficiente. Não estamos pedindo por privilégios ou luxos. Estamos pedindo respeito! Estamos pedindo o direito de viver!”

Domingo é o único dia para recuperar as energias

A garçonete Ana Jullya Araújo dos Santos, 16 anos, só tem tempo de descanso aos domingos. “Trabalhar de segunda a sábado é uma rotina que exige disciplina, organização e muita responsabilidade. Diferente da jornada tradicional de cinco dias, esse modelo reduz o tempo de descanso e faz com que o domingo se torne o único dia realmente livre para recuperar as energias, resolver questões pessoais e estar com a família ou amigos.”

A semana, diz ela, passa muito rápido, com uma rotina intensa, com compromissos, prazos e metas a cumprir. “Quando chega o sábado, enquanto muitas pessoas estão começando o fim de semana, quem trabalha nesse dia precisa manter o foco e a produtividade. Isso pode gerar cansaço acumulado, tanto físico quanto mental.”

Pietra Hara e Ramíla Moura, para a Rede PT de Comunicação.